DE VOLTA ÀS RUAS
Da Folha de S. Paulo
RIO DE JANEIRO - Em 1968, quando ainda morava no Rio, Paulo Francis disse
casualmente numa roda em que se discutia certo programa de televisão:
"Minha televisão fica no quarto da empregada. Sinto que estou envenenando
a coitadinha". Gargalhadas gerais. E não era mais um esnobismo de Francis.
Era a verdade. O surpreendente é que, com isso, ele admitia ter televisão em
casa, mesmo que no quarto dos fundos.
Eu, por exemplo, garoto, boêmio e morador do Solar da Fossa, não tinha. Nem me
passava pela cabeça. A rua era excitante demais para se ficar em casa, e a
programação das emissoras, mesmo com os festivais da canção, não era páreo para
a vida real.
Naquele ano, havia 4 milhões de aparelhos no Brasil. Hoje, são 200 milhões. Mas
nada é eterno, e algo me diz que a televisão doméstica, entronizada na sala ou
no quarto de dormir, chegou ao pico -muito mais gente logo estará ligada em
telinhas na palma da mão do que nessas catedrais de 50 polegadas. E, para quem
continuar a manter uma TV em casa, ela não terá mais status do que um
liquidificador.
O que me parece ótimo. Com as telinhas de três polegadas, as pessoas estão
voltando a sair às ruas, sem prejuízo da sua fome de informação. A televisão
vai com elas. Não admira que os botequins vivam abarrotados -quando as pessoas
querem se informar sobre alguma coisa, interrompem a fala ou a mastigação e
tiram a maquininha do bolso.
Em 1971, Francis se mudou para Nova York. Pouco depois, fui visitá-lo lá.
Estranhei quando vi uma enorme TV na sala de seu apartamento na Bleecker
Street, no Village. E mais ainda quando ele me falou entusiasmado de um novo
sistema de transmissão paga, em que cabos por baixo das ruas lhe permitiam
assistir a 40 ou 50 canais. E o engraçado é que, como sua antiga empregada,
Francis não se sentia envenenado.
FOLHA DE SÃO PAULO / EDITORIAIS / RUY CASTRO / DE VOLTA ÀS RUAS / 11.06.2012.
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