O
NARCOTRÁFICO JÁ É O MAIOR NEGÓCIO IMPERIALISTA DO MUNDO
As veias do negócio na América Latina
(Jonas Potiguar)
A América Latina é o principal fornecedor de cocaína e maconha do mundo. Os
cartéis latino-americanos enviam ao mundo 270 toneladas de cocaína por ano e já
detêm 15% da produção de heroína, produto tradicionalmente elaborado no sudeste
asiático. Hoje, o Afeganistão controla a maior parte da produção mundial. A
coca ocupa uma área de 200 mil hectares espalhados em milhares de propriedades
na Colômbia, Peru e Bolívia e emprega 5 milhões de pessoas. Calcula-se que na
Bolívia entram por ano US$ 600 milhões relativos ao comércio da coca, no Perú
US$ 650 milhões e na Colômbia US$ 1,7 bilhão, ainda que seja impossível
conseguir cifras exatas.
Na Colômbia, 70% das terras cultiváveis estão agora nas mãos dos
narcotraficantes. Segundo dados da DEA (Agência de Repressão às Drogas do
governo norte-americano) para 1995, as entradas, produto das exportações de
cocaína da Colômbia, alcançava os 10% do PIB, três vezes mais que as vendas da
Ecopetrol, de longe a maior empresa do país. O narcotráfico e seus capitais
penetraram em todas as atividades econômicas básicas e fundamentais do país,
como bancos, agricultura, construção civil e indústria e faturam uns US$ 200
bilhões, segundo dados do FMI.
Na Bolívia, igualmente, o valor das exportações relacionadas com a cocaína supera
todos os demais ramos econômicos. No Peru, a produção de coca chegou a alcançar
8% do PIB do país, empregando 7% da população economicamente ativa. Houve uma
queda importante nestes índices, devido à queda dos preços da coca, saturação
do mercado mundial, forte superprodução. Depois de ser o primeiro produtor
mundial de folhas de coca, o Peru - tudo indica que - vai tornar-se um forte
exportador de heroína, pois já estão se produzindo papoulas em terras muito
propícias para este cultivo.
No Paraguai, o tráfico de drogas, carros e armas é o setor mais dinâmico da
economia e já penetrou em todas as instituições estatais, policiais, políticas,
etc. O México é um grande produtor de maconha, cujo monopólio é assegurado pelo
próprio exército do país, que foi direcionado para reprimir o narcotráfico e
terminou sendo comprado. Argentina e Uruguai, principalmente este último, têm
se convertido em importantes bases para "lavar" narco-dólares.
Em todos estes países pode-se encontrar altas esferas do poder metidos até o
pescoço no narcotráfico, desde altos oficiais, incluindo as agências nacionais
"antidroga" na Colômbia, Paraguai, Peru, México, Bolívia. Até
políticos de altas esferas, como Oviedo no Paraguai, Menem, o irmão do
ex-presidente Salinas, no México, foram flagrados em escândalos. No Brasil,
agora está vindo à luz informações que comprometem políticos burgueses, setores
inteiros das polícias, juízes, empresários e banqueiros, corrompidos pelos
cartéis do narcotráfico.
O imperialismo norte-americano quer controlar todo o negócio e...
A "guerra contra o narcotráfico" promovida pelos EUA tem um aspecto
econômico, político e militar. O aspecto econômico busca impedir que surja uma
forte burguesia nos países semi-coloniais apoiada neste grande negócio, já que
isto permitiria o controle de um negócio mundial que alcança cifras em torno de
trilhões de dólares. Daí sua política de repressão seletiva, que ataca os
pequenos produtores, com a destruição das plantações de coca na Bolívia, Peru e
Colômbia e com os consumidores, sem atacar os grandes atravessadores que são os
que detém o maiores no processo, principalmente as máfias americanas e os
grandes bancos que recolhem o grosso dos lucros do narcotráfico.
É uma repressão seletiva porque busca destruir os grandes cartéis somente
quando estes assumem proporções gigantescas, como os cartéis de Cali e Medellín
que estavam constituindo grandes oligopólios mundiais por fora do controle
americano. Por isso, foram desbaratados e em seu lugar surgiram dezenas de
cartéis que continuam o trabalho inclusive produzindo e distribuindo mais
cocaína que os dois cartéis juntos. A burguesia destes países produtores
(Colômbia, Peru e Bolívia) se dividem alinhando-se ou não com o imperialismo
americano pelo controle e pela apropriação da maior quantidade de lucro que
gera para incluir no circuito "legal" do capitalismo.
Desta forma, o imperialismo, acossado pela crise econômica, busca controlar
todos os ramos econômicos dos países semi-coloniais (vide privatizações e
abertura dos mercados) e a "guerra contra o narcotráfico" é somente a
cobertura para uma luta sem quartel para controlar e garantir que os volumosos
lucros desta grande indústria seja açambarcado por suas empresas, bancos, e por
setores aliados nos países atrasados e não potencialize o surgimento de uma
forte burguesia lúmpen que rivalize com o imperialismo ou mesmo possa
enfrentá-los ainda que circunstancialmente.
Ademais, desbaratando os grandes cartéis, utiliza o dito "dividir para
reinar", já que pode infiltrar agentes da DEA e da CIA, informantes e
pilantras da pior espécie dentro das organizações mantendo, perfeitamente, um
controle sobre todo o negócio e "explodindo" os setores que não estão
totalmente "sob controle". Para isso contam com a ajuda da
subserviente burguesia latino-americana mais realista que o rei e totalmente
subordinada aos interesses do Império do Norte.
É do conhecimento de todos os escândalos que relacionam os americanos em
tráfico de drogas. Por exemplo, a esposa do coronel Hiett, o chefe dos militares
destacados para seguir na Colômbia o combate às drogas foi detida por traficar
cocaína usando os canais diplomáticos. O comércio é tão gigantesco que uma rede
dentro da American Airlines, usava as facilidades de acesso a aeroportos para
oferecer cocaína nas maiores capitais do Tio Sam.
Porém, estes dois exemplos são só a expressão de uma vasta rede clandestina
montada pela CIA, DEA e outros órgãos de inteligência americana. Em janeiro de
1980 apareceu morto um banqueiro australiano, F. Nugan, co-proprietário de uma
instituição (NUGAN HAND INC) com sucursais nos 5 continentes. As atividades da
Nugan: negócios com pessoas com conexões provadas com drogas; intensa atividade
bancária na Florida ligada a narcóticos, tráfico de armas. Existem provas da
conexão desta "empresa" com o FBI e a CIA. O quadro de acionistas e
pessoas que tiveram relação com o banco vão desde Abe Saffron, personagem
fundamental do crime organizado na Austrália, Terry Clarck, chefe do sindicato
exportador de opiáceos chamado Mr. Ásia. Capos da Cosa Nostra americana que se
conectavam com o Banco Nugan via Sir Peter Abeles, igualmente sir Peter
Strasser, equivalente de Abeles ao nível de petróleos, Rupert Murdoch, Theodore
Shackley, ex-diretor de operações clandestinas da CIA, Richard Secord, chefe de
vendas de equipamento militar no Pentágono de 1978 a 1984, demitido depois de
fraudar o exército americano em 8 milhões de dólares. Através de Oliver North -
em nome do Conselho de Segurança Nacional, Secord foi encarregado de organizar
a conexão Irã-Contras. Os administradores e conselheiros do banco eram na sua
maioria militares de alta patente, ligados ao Conselho de Segurança Nacional
dos EUA, chefes na guerra do Vietnã, ex-diretores da CIA.
Esta grande rede controlava o tráfico de heroína e venda de armas em acordos
com os grandes cartéis, "sócios na luta contra o comunismo". Quando
este banco vai à falência, surge imediatamente um substituto, o BCCI, que passa
a ser parte desta rede clandestina e foi via ele que processou a negociata do
escândalo Irã-Contras onde o governo financiou os contras nicaraguenses com a
venda ilegal de armas ao Irã e com o tráfico de entorpecentes. O BCCI tinha uma
rede secreta composta por 1.500 funcionários dedicados ao tráfico de armas,
drogas e divisas, prostituição, seqüestros, assassinatos, etc.
Na verdade, o pretenso combate ao tráfico é a
fachada para impor um controle econômico e político na região, já que sequer
consegue efetivamente o que se propõe. O tráfico de drogas do Panamá aumentou
após a intervenção imperialista contra Noriega. O governo do ex-presidente
mexicano Carlos Salinas de Gortari, grande amigo dos EUA, tinha uma de suas
bases de sustentação no tráfico e seu próprio irmão Raúl era uma das figuras
centrais do contrabando e do tráfico.
Na Colômbia, os narcotraficantes mais poderosos apóiam os paramilitares e
tiveram participação direta nas execuções de líderes sindicais, ativistas e
jornalistas. Esses crimes permanecem impunes, com a conivência das mesmas FFAA
que os EUA orientam e enchem de dólares.
O que preocupa o imperialismo é que os países exportadores de drogas se
beneficiem economicamente. Por isso dirige seus ataques à periferia: as
plantações, os centros de produção e principalmente a "lavagem de
dólares" na América Latina. Porém, não combate estas atividades com a
mesma intensidade e força em seu próprio território.
O imperialismo sabe, pela sua própria história, que o surgimento destes ramos
"ilegais" é uma forma de acumulação primitiva do capital que pode
permitir o surgimento de grandes capitais financeiros, como foi no seu tempo o
tráfico de escravos, a colonização da América, os piratas a serviço da rainha
da Inglaterra ou mesmo, mais recentemente, na década de vinte nos EUA, quando a
proibição do álcool levou à formação de impérios clandestinos que depois
transformaram-se em grandes negócios.
...recolonizar a América
Latina
O aspecto político e militar da luta "contra o narcotráfico" é que a
partir do final dos anos 80 o imperialismo norte americano utiliza o "perigo
do narcotráfico" para assim justificar sua crescente intervenção nas
forças de segurança dos países latino-americanos, como na Colômbia, Bolívia,
Peru, Equador, Panamá, Brasil, Paraguai, México, etc.
Por trás dessa máscara se insinua a penetração de militares norte-americanos em
toda América Latina, cuja ponta de lança para a intervenção começa na Colômbia,
porém que está desenvolvendo seus tentáculos em todos os países da área. O
Narcotráfico é utilizado para justificar intervenções abertas e descaradas,
retrocedendo a formas coloniais que vai desde invasões, como foi o caso do
Panamá, até treinamento de FFAA com "assessores" militares como na
Colômbia, Bolívia, Peru, Paraguai, até ceder partes do território para que
sejam patrulhados por ianques. O imperialismo norte-americano relocaliza
dezenas de milhares de militares que estavam estacionados no Panamá,
construindo bases e acordos militares com a maioria dos países da área,
preparando-se para embates na luta contra a liberação nacional e os grandes enfrentamentos
que estão por dar-se na área, como prenunciam Colômbia, Equador e outros.
(Publicado no site PampaLivre.info)